sábado, 8 de julho de 2017

Dor

15 de Julho de 2091

Bem lá no fundo, no fundo mesmo, eu sinto dor. Eu sinto uma dor irremediável de ter que partir da minha casa, com remorso. De ir e não ter nem o dinheiro da passagem. Das obrigações mesquinhas e infantis. Das argumentações soberbas sobre tudo que a gente sente. Definho em mágoas antigas passando por fotos. Eu nunca mais pedi desculpas. Nem devo. As pessoas querem fazer sempre com que você se desculpe por aquilo que não fez porque quis fazer. E você, meu amigo, não fez nada por querer. Apenas essas últimas decisões que talvez te levem pro ostracismo total. Você caminha a passos largos para a solidão moderna de sábado a noite. De não ter com quem contar quando passar frio: o frio é a expressão natural da solidão. Você já reparou que não escreve nada feliz? Sua tristeza sobre o vazio existencial só afastou seus melhores amigos, seus maiores amores. Menos eu, que continuo firme e forte nessa Odisseia tenebrosa que é você. Vamos compartilhando solidão. Somos uma sociedade do múltiplo compartilhamento de solidões. E dor. A dor é algo tão social, mais tão social que hoje ela já é institucionalizada. Assim como a fé. A fé virou negócio e o negócio é correr pras montanhas. A dor é passageira assim como o estado de espírito e de solidão. Os fluídos vão: metade da gente escorre todo dia no chuveiro, no trabalho, nas festas indesejadas, nas drogas usadas. Filhos do meio da história, sem pretensões ou causas. Somos eu e você, meu amigo. Sentindo dor.

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