quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Sombras do passado
Sombras. Meu amigo, as sombras reaparecem. Te rodeiam como Tubarões famintos em tempo de pouco peixe. Você finge saber lhe dar com elas. Elas te amedrontam, assim como a mim também. Você quis se livrar delas. Não venha com discursos burocráticos de miolo de pote, farfalhando sobre tudo o que você repudia e repudiava em si. Já não sei se queres mais minha ajuda. Frustrações. Quantas mais? O que você fez pra merecer tantas? Não esperas mais um sim de ninguém. Os sins vêm disfarçados de talvez, de "agora não", de "o momento não é oportuno". As pessoas brincam com você. O que você pretende fazer acerca disso? Nada. Passividade é seu carro-chefe. Nem tens cacife suficiente pra tentar amenizar sua situação. O que te prende às pessoas erradas? Erradas pra você, Certas para o mundo. Definições só te deixam mais solitário do que és. Procura um abrigo, porque esse ano parece que vai chover muito, e você pode ser levado. As sombras apenas observam, riem como abafos em gravações. Te desejam o pior: que tu voltes a ser como eras. E como és?
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Lobos e Homens
Caro amigo. Não demoraria eu ter que voltar até aqui.Vou ser imediato: O que você quer ouvir dos outros? Não. Você não vai parar num emprego medíocre, com um salário medíocre, onde só as proparoxítonas são acentuadas. Mas tua vida será tão linear que você irá pedir pra ter preocupação, pra se emocionar com algo. "Deve ter alguma coisa que ainda te emocione". Tu acorda. Levanta, faz o café. Lê o jornal. As notícias são sempre as mesmas, com outros personagens. Engraçado mesmo é o barulho que fazes quando levanta do sofá. Teus ossos estralam como se fosse rochas quebrando. Tu anda doente, mas mesmo assim nega ajuda. As pessoas passam e você só observa. Você para na frente da vitrine de roupas de grife. Nada daquilo te satisfaz. Nem mesmo as moças bonitas que atendem os rapazes que compram roupas pra ficarem bonitos para outros rapazes. Você nunca entendeu a lógica dos relacionamentos. Inclusive, não quero te desanimar, mas de lógicas não se faz nenhum sentimento. Você tenta vê-las em tudo, por esse seu impulso matemático de se observar a vida. Quando teus país falam, você procura defeitos para que não faça a mesma coisa. Mas você tem tudo deles, inclusive os defeitos. No mercado, os preços não te assustam. As pessoas sim. E quando você precisa de informação? Você quer viver o resto da vida sozinho? Não posso ajudar se você não quer ser ajudado. Se você quer mudar, então muda. Mas para de ver as coisas como elas não são. Elas não são como você quer. Aceite mais as derrotas. Invista nas pessoas certas e nas erradas, sobretudo invista. Não fique aí parado pensando que o mundo é cruel, se você não sabe a diferença entre ter um gato e ser solitário.Você vai ter que aprender a viver entre lobos e homens. Entre o inexorável e o lógico. Entre você e os outros.
Auribus teneo lupum
18 de agosto de 1978
Essa tua vida anda pra baixo assim como teus pensamentos. Tu és mesmo um desvairado nessa loucura que chama de crescer e ser responsável. Minha voz a cada dia some e me parece que você faz tudo para isso acontecer. Não ando te pedindo muito além das minhas expectativas sobre você. Gostaria que você me ouvisse: o que atrapalha seu crescimento é sua insistência em fazer aquilo que você não gosta. Das decisões que você toma sabendo que vai voltar atrás porque não quer me ouvir. Eu sei que nos dias de hoje uma roupa vale mais que um verso sincero. Mas vale mais teu sorriso pobre do que tua tristeza rica e reconhecida. Quem diria que tu ia realmente perceber que teu lugar não é nessa matilha. Tu és lobo solitário que renegou teus amigos por caças maiores. Mesmo sem fome, não negas tua recompensa perante o júri infantil que a vida é
Essa tua vida anda pra baixo assim como teus pensamentos. Tu és mesmo um desvairado nessa loucura que chama de crescer e ser responsável. Minha voz a cada dia some e me parece que você faz tudo para isso acontecer. Não ando te pedindo muito além das minhas expectativas sobre você. Gostaria que você me ouvisse: o que atrapalha seu crescimento é sua insistência em fazer aquilo que você não gosta. Das decisões que você toma sabendo que vai voltar atrás porque não quer me ouvir. Eu sei que nos dias de hoje uma roupa vale mais que um verso sincero. Mas vale mais teu sorriso pobre do que tua tristeza rica e reconhecida. Quem diria que tu ia realmente perceber que teu lugar não é nessa matilha. Tu és lobo solitário que renegou teus amigos por caças maiores. Mesmo sem fome, não negas tua recompensa perante o júri infantil que a vida é
Waterloo
11/05/2022
Querido amigo, hoje o dia amanheceu mais cinza do que nunca. Pagaste tuas contas em dia, porém não dormes bem faz um século. Quem poderá te salvar dessas turvas precipitações? Fora um grande herói de guerra que consumiu mais da metade de teus bons amigos. O resto se perdeu durante a volta pra casa. Tu ainda tens a mim, que te dei cobertura nos teus flancos mais sensíveis. Te servi como espada e escudo. Quando a batalha acabou, você não era ninguém. Salvou um coronel mas matou a criança. Hoje nem és tão veterano, mais envelhecer foi sua maior dádiva. Como general de si, comandaste mil exércitos para os campos. Quem ainda está vivo? Além de mim e você, o tempo...
Querido amigo, hoje o dia amanheceu mais cinza do que nunca. Pagaste tuas contas em dia, porém não dormes bem faz um século. Quem poderá te salvar dessas turvas precipitações? Fora um grande herói de guerra que consumiu mais da metade de teus bons amigos. O resto se perdeu durante a volta pra casa. Tu ainda tens a mim, que te dei cobertura nos teus flancos mais sensíveis. Te servi como espada e escudo. Quando a batalha acabou, você não era ninguém. Salvou um coronel mas matou a criança. Hoje nem és tão veterano, mais envelhecer foi sua maior dádiva. Como general de si, comandaste mil exércitos para os campos. Quem ainda está vivo? Além de mim e você, o tempo...
Et Flores
10/09/1983
Na calada da noite, nesse baixo inóspito e doentio, fico contando as luzes que se apagam sucessivamente nos prédios vizinhos. Ali, cada um com sua história, seus problemas, seus amores. Não te observo mais de tão perto, meu amigo. O seu cheiro é tão inalável quanto a das flores mais cheirosas. São lindas, porém enjoativas demais. Se lembra, tua mãe queria você um santo, mas você, assim como fala a canção do Wado, preferiu andar com as bruxas. Então me ponho novamente a observar os prédios vizinhos. Cada luz que se apaga, provavelmente foi de um beijo de boa noite, de um telefonema do ente querido. Ou não, foi simplesmente a luz apagada à espera de mais um dia que vem. Ou não vem. Andas a esmo nessas ruas coloridas, por mais que veja as flores do bem, elas nunca te notam. Elas estão estáticas e vazias. O teu trabalho tira teu sono, não consegues ser produtivo. Por que me esquecestes? Ainda tenho você como a melhor parte de mim...
Vox nihili
(16 de Janeiro de 1951)
Olá, tem alguém aí? Não consigo ouvir minha voz, estou mudo, mas continuo a bravejar. O que será que acontece comigo? Meu amigo, quando foi que tu decidiste escrever de volta aquelas cartas que eu mandei faz um bom tempo? Não me venha com esse papo absurdo de que nossa conexão é atemporal. Absurdo mesmo sou eu ainda querer te escrever alguma coisa. Essa semana sentisse saudades da tua ex-amada. Aquela que te deixou sem explicação plausível. Na verdade, a única explicação (plausível ou não) foi de que tu não foste preparado pra nadar em águas rasas. Que essas águas muita das vezes estavam truculentas e você, como um bom timoneiro, ainda tentou guiar esse barco até o cais. Só você não enxergou que ele já havia afundado. Não a culpe: ela é apenas uma das muitas que virão. Virão algumas Helenas de Esparta, outras Medusas, outras Afrodites e muitas, mas muitas outras sem denominação greco-romana. Eu tento te alertar, mas não consigo ouvir minha voz ressoar na tua mente. Você me apagou dos seus contatos. Isso é triste, eu queria apenas te dar o queijo, porque andas com a faca na mão.
Vendeta
(15 de julho de 1991)
Boa noite! Eu demorei um bocado de tempo pra vir te escrever de novo e te contar sobre o que aconteceu desde a última vez que nos vimos. Andas a esmo, sem destino certo. Vagando entre dois copos de cerveja e um oi em um bar da esquina. Volta pra casa e dorme. Acorda e vai trabalhar. Onde está aquele meu amigo que duvidava dos padrões medíocres postos pelos maiorais lá de cima? Será essa a tua Vendeta? O teu prato principal que irás degustar com teus maiores inimigos? Não sei ao certo o que tu pensas em fazer, afinal estou em sua mente, mas você mente pra mim. Vive me confundindo. Quando acho que estais fazendo o correto, você surta e volta para o início da caminhada. Quem era quando queria colocar fogo no parlamento não é mais. Agora, solta tua máscara e deita nos braços morenos de tua amada, pois não tens dinheiro pra voltar pra casa de metrô. Talvez pague a passagem até a metade do caminho, mas nunca irá chegar ao destino. Eu sou apenas uma ideia. Quando me chamares, temo não está mais aqui. A escuridão é gelada demais e esses teus pensamentos mesquinhos me afogam dia após dia. Entorpecem-me de morbidez, de refluxo. Por favor, não jogue esses teus 23 anos no lixo mais uma vez. Prova que eu estou errado. Eu sou uma ideia, nada mais. Ama teu cajado e teu escudo, nunca te desfaça deles, pois são tão preciosos quanto tua vida. Tua vendeta te espera mais fria do que nunca, se seguires o que digo. Mas não atente contra os inimigos que você acha que são os seus verdadeiros. Esses são os que não deram ouvido a voz que assim como eu, falo por meio desse veículo. Mantenha tua cabeça firme e teus olhos abertos para aqueles que tentam te ludibriar. Atenta pra tua desforra, não impregne com esses manjares sujos o teu manto. Assim terás encontrado o teu caminho de volta para o Absoluto.
Se no final dessa caminhada, tu achares que eu sou a tua vendeta, tua arma, sabereis que andou fazendo as escolhas erradas. Mas eu te alertei. Não tem desculpas, não tem nenhuma brecha que você possa se encaixar para me desmentir. Nesse dia, você se tornará sua própria vendeta; eu, por fim, entrarei sublime nos campos da primavera eterna e tu voltarás ao ciclo para aprender com os elementares.
Memento Mori
(12 de Janeiro de 1999)
Então meu bom amigo! Eu retornei. Estou novamente aqui pra te dizer que andava pensando que era deus, que podia fazer coisas inimagináveis. Não! Eu digo que você é limitado, mas não conhece essa fronteira ainda. Podes ir longe só que um dia irás esbarrar numa parede abstrata. Esse será o seu limite. Nem tentes ser a vítima, apenas o carrasco. Eu sou você; porém às vezes acho que sou teu algoz e teu salvador. Imagina só: tu percebeste de repente que erra! Então repito infinitamente a expressão que encontrei jogada na tua porta de entrada para a posteridade: Memento mori. "Lembra-te de que és mortal". Nada mais sugestivo, não é caro amigo? Algumas pessoas que assistem ou leem nossas conversas acham que sou ruim, que sou um patife e que toda essa conversa é um prólogo pra uma desavença eterna. Bobagem. Sou eu que te salvo das mais diversas enrascadas que se propõem a te engolir. Sou que te acordo na madrugada e te faz refletir sobre o que falaste pr'aquela tua amiga, que tanto gosta de ti. E você às vezes fala mais do que devia, pensa menos no que é certo. Eu estou aqui pra ver tudo isso. Não temas as batalhas. Se você morrer alguns sentirão falta. Outros, porém, estarão comemorando ao som dos inebriados. Morro de frio aqui dentro, só porque tu nunca estás disposto a conversar. Memento mori pra você. Que acha que vai ter o nome gravado numa estátua e depois vai ter uma recompensa por isso tudo aqui. Não se iluda tão facilmente meu amigo, a vida é tão sofrível quanto a morte. Acho que até mais que ela. Não se abstenha em diversificar tuas companhias, mas sinta que um dia elas vão deixá-lo por algo a mais que você provavelmente não tem ou tem mais não sabe que tem. Veja que esse é um problema central. As verdades que todos têm medo de dizer, eu digo a você. Porque medo de dizer a verdade é para aqueles que enxergam a vergonha alheia. Acham que mentir pra confortar é o mesmo que omitir. Omitir é uma mentira que não saiu do útero da falsa mãe, da mentira. Amigo meu, não te preocupes em mentir para se salvar, apenas preocupe-se na mentira que irás se transformar. Mentir pra mim você não pode. Então não vou mentir pra você também. Quem dera que os outros tivessem seus amigos como eu e você com tanta abertura pra se falar o que pensa. Não, isso não é um monólogo! Se tiver algo a falar, fale, Beije-me quando for dormir nos teus átrios. Mas não me deixe calar em um só momento. Faça de mim o que eu sou: você!
Todos estão em Ítaca
(09 de Junho de 1995)
Caro amigo! Eu estou aqui mais uma vez. Pra falar a verdade, eu estou sempre aqui, escondido entre o que você vê e o que você acha que vê. Na verdade, tenho consumido teus dias, tuas tarefas, tuas datas. São todas hediondas, esdrúxulas. A tua jornada é mais calorosa e intensa do que receptiva no final das contas. Aliás, talvez nem tenha final. Feliz? Nem ouse sonhar com essa palavra. Não me chame de carrasco, de insensível, meu velho amigo. Mas sou eu que te aguento todos esses dias que você se lamenta por uma besteira que acontece na tua vida. Por uma pessoa que te magoa ou te agride na alma e tu não consegue não revidar. Acha que ficar calado é para os fracos. Já pensou se eu te dissesse que eu não consigo ficar calado também, porém não preciso me alterar? Tua Odisseia tem muitos ciclopes, de olho no teu melhor vinho. De olho nos teus companheiros, pensando em tragá-los como tira-gosto do bar. E tem muita Circe, tentando te enfeitiçar com a beleza mundana e fútil, dos incrédulos do bem-viver. Algum Hermes já te avisou? Não, eu estou te avisando, sou Palas Atenas te guiando, ajudando como posso. Vai encontrar muitos bois de Hélio, o Sol. Tomes o cuidado e não mexa com eles, assim saíras vivo dessa prenda. Poseidon sabe que você tem fibra e quer a qualquer custo te afogar. Cila e Caríbdis estão a tua espera, no estreito de Messina, onde tu vai ter que escolher qual monstro você vai enfrentar.
Além disso, não se deixe vencer por Calipso. Não traia Penélope nem Telêmaco. Todos estão em Ítaca. Aqueles que te odeiam e aqueles que te amam. Vai encontrar algo desconhecido lá; poderás apenas confiar nos mais antigos e nunca deve se revelar antes do combinado. Menelau está em Esparta e nada pode fazer para te ajudar, Odisseu do século XXI. Nem mesmo Agamenon, que outrora queria dominar Troia, hoje jaz enterrado por conta de sua mulher. Não queira ver o que vai acontecer com os que ameaçam tua casa. Tua morada tem que ser impenetrável, grande Odisseu.
Todos estão em Ítaca, menos você. Preferiu ficar 10 anos travando lutas quaisquer sem saber nem seu paradeiro. Polifermo te odeia pelo que fizeste ao seu único olho. Não terás nenhum Ajax para disputar armadura de vencedor, ou Aquiles para aconselhar. Nessa jangada estarás sozinho e chegará em casa como um desconhecido em busca de redenção e vingança.
Usa tua astúcia, já que fizeste o belo Cavalo de Troia sair do papel. Todos te esperam em Ítaca, mas te apressa, pois Zeus não tem Cronos, o Tempo, do mundo!
Hikikomori
(27 de outubro de 2011)
O que estás pensando nesse momento, meu digníssimo amigo? Andei procurando uma brecha entre os escombros que minha vida tem sido. Não acho sequer um bom lugar para dormir. Ando numa guerra sem fim: Apresento-o o soldado que vos escreve, amigo! Você nunca mais me escreveu. Será que as trincheiras tão sórdidas tem sido teu túmulo? Onde estava aquela vontade de viver, quando estávamos jogando bola em frente aquela casa, que ainda paira na memória? Dos dias em que você era imortal. Ninguém te derrubava, nem mesmo a menina mais bonita da escola, que se engraçou pro teu lado e você se fingiu de morto. Dos planos que não eram planos. Das bandas e sucessos que poderiam te fazer um novo Rockstar, mas você preferiu guardar tudo na gaveta das recordações. Eu estou aqui, meu amigo, lutando por você, não vou te deixar sozinho nessa! Onde anda aquela menina tão linda a qual tu eras apaixonado? Está casada, com outro em seu leito e tu apenas escreve pra sobreviver por uns míseros trocados. Carne mal passada. Bruxas interiores. Tudo e nada vivestes nesse período.
O problema, meu velho amigo, é que hoje você vive nem no nada nem no tudo. Na mediocridade da vida adulta, em fazer planos alados pra daqui a 20 anos, eu ter que voltar e dizer que você não deixou de ser aquele menino da travinha na rua de trás. Que provavelmente enganou seu irmão mais novo e lhe surrupiou pelo menos 10 bolas de gude, 8 peões e sei lá quantas garotas. Tu que achava que eras feio e nunca iria arrumar uma menina. Arrumaste, perdeste. Arrumaste de novo, perdeste outra vez. O que você pensa que sabe sobre o amor? Ingênuo, achou que as meninas que você acha que são bonitas iriam ler esses teus textos baratos e iriam te chamar no bate-papo das tuas redes sociais. Que verdades doloridas hein, amigo?! Nunca, mas nunca mesmo, se desfaça de uma boa amizade. Nos 80, você vai saber o que é. E a faculdade? Encontrou novos e velhos amigos, mas nenhum deles chega aos meus pés, tu sabes. Eu sou aquilo que você pensou ser, mas nunca vai ser porque não quis. Ou apenas aquilo que você nunca quis ser. Enfim, sou seu melhor lado e seu pior.
Até as próximas cartas, amigo! Sobreviva até lá
Olá, meu bom amigo!
Como estas meus amigo? Já se passaram 23 anos que nos vimos. O que tens de novo a me mostrar? (risos) Nunca fostes me visitar, será que foi falta de tempo? Não, não acredito nessa sua desculpa esfarrapada, nesse teu jogo antiético de mímicas que ninguém, digo ninguém, entende. Eu entendia. Mas hoje permaneço burro e invisível. Há 23 anos que você se quer escreve uma carta pra mim. Seria demais pegar o papel e o lápis e escrever uma palavra? Não peço gentileza, não fui um dos seus melhores amigos. Inclusive, tivesse melhores amigos do que piores inimigos. Tirando eu, que me tens como tal inimigo mortal e indigesto. Mas mesmo assim, faço tudo pra te ver feliz. Vi todos os seus choros de longe esse tempo todo. Nunca me agradecestes. Mas continuo fiel. Ah, vi também os teus amores nascerem e morrerem, vi você cantar na chuva, no chuveiro. Vi você arriscar e desistir de tudo que lhe convinha. E hoje o que és?
Tens realmente vontade de me encontrar? Não consigo entender porque não. Sou ainda aquele que te deu os melhores conselhos que nenhuma outra pessoa poderia te dar. Nem mesmo teus pais. Nem tua irmã mais velha, que hoje partilha da dor da saudade da família. Nem teu pai que vive trabalhando noite e dia achando que vai ser salvo por alguém quando tudo isso acabar. Nem tua mãe que batalha pra ter o melhor para tu e teus irmãos e mesmo assim ninguém reconhece. Eu reconheço. Nem teu irmão que ainda experimenta tuas dores de outrora. E faz tudo como manda a receita. Mal de tua família. E tuas namoradinhas? A primeira, tu amaste em silêncio por que era clichê demais dizer eu te amo para quem ainda se conhecia. Ela te deixou com uma dívida externa e interna de duas semanas de tristeza mórbida e músicas melosas. A segunda, tu passou por cima como um trator. Nem foi homem suficiente para amá-la, mesmo sabendo que ela sim, poderia te fazer feliz. Espero que as próximas tenham destinos melhores.
E por que jogo a merda no ventilador? Porque sou teu verdadeiro amigo. Nunca te deixei. Nunca fiz você esperar por mim. Nunca tive que ir embora. Mas você me deixou bom amigo.
E nem adianta prolongar essa carta. Tu, que sabes melhor como ninguém o que é ser infeliz e o revés, sabes que ainda volto a te escrever.
Com amor, Eu!
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